quinta-feira, 8 de março de 2007

Dia da Mulher

Apesar de considerar que, tal como o dia mundial da Criança, o dia da Mulher deveria ser todos os dias, aproveitarei esta data para desabafar aquilo que, há muito, me vai na alma, não apenas por ser mulher, mas por ser cidadã do mundo.
Dos vários milhares de anos que a nossa espécie habita este planeta, quase metade desse tempo, o género feminino tem vivido em autêntica idade das trevas, estando nos últimos cem anos a assistir-se ao seu progressivo renascimento.
Ao contrário do que ainda muita gente pensa, durante o longo período da pré-história a mulher era valorizada e desempenhava um importante papel na sociedade. Ela era a matriarca, a garante da subsistência da espécie e o macho humano, o seu parceiro e principal aliado. Tal como em muitas outras espécies de mamíferos, a superioridade muscular era posta ao serviço da defesa da espécie, assegurando a alimentação e defesa da família, enquanto a fêmea transportava no seu ventre a descendência ou amamentava as crias, (em vez de se virar contra a própria espécie, como se tem verificado na sociedade patriarcal, contra-natura). O profundo «sexto sentido» da fêmea, recebido directamente da natureza com dote, comum a todas as fêmeas de mamíferos, era tido em conta, quando era necessário migrar para outro local mais vantajoso, ou outra decisão importante para o grupo.
Porém, a enorme sede de poder levou certos grupos a atitudes políticas que lhes assegurassem esse poder. Talvez isso tenha estado no fundamento e início das religiões monoteístas, com base num deus único, omnipotente e todo poderoso, à imagem e semelhança do homem (macho), com todas as suas virtudes e defeitos. Este deus passou, pouco a pouco a dominar as civilizações e o mundo, tudo passou a ser feito em função dele e tudo era justificado em nome dele, desde o muito bom ao mais perverso, tudo dependia dos homens que o representassem, e dos seus interesses pessoais.
Assim, a religião deixou de respeitar a natureza, como outrora, e acabou por derrotá-la.
Toda a nossa vivência se tornou contra-natura, e todos acabámos por pagar esse preço.
O nosso belo corpo, obra divina ou natural, passou a ter de se esconder, como algo abominável e que nos envergonha (ofendemos a natureza), a sexualidade tornou-se quase um crime, durante séculos, no entanto, ninguém se apercebeu das incoerências da religião tão respeitada cujos dogmas incluíam: «crescei e multiplicai-vos» (não acrescentando que seria por geração espontânea, nem como as bactérias, pois não fomos fabricados como seres hermafroditas). A gravidez da mulher passou a ser vista como uma maldição em lugar de uma bênção, sobretudo, se fora do casamento religioso.
Interpretaram-se metáforas religiosas da forma que melhor servisse o poder instituído, rotulando a mulher como um ser inferior e indigno, conspurcada com o pecado, quando originariamente, nenhuma dessas metáforas, verdadeiras ou inventadas, o afirmavam com tal, por exemplo: no livro de Génesis do Antigo Testamento é dito que Deus fez a Mulher a partir da costela de Adão, e este tinha sido fabricado a partir do pó. Se interpretarmos, racionalmente, esta metáfora, se ela nos diz que alguém é inferior a outro, não se refere, com certeza, à mulher, pois a carne é superior (mais elaborada, mais perfeita) que o pó.
Mesmo a tão questionada virgindade de Maria, mãe de Jesus, afirmada em alguns capítulos do Novo Testamento, só inferioriza o homem e o marginaliza do divino rotulando-o como grande portador do pecado, senão vejamos: Deus deu a uma mulher a possibilidade de transmitir os seus genes a seu divino filho, mas não permitiu a José, como homem, juntar o seu ADN no sangue de Cristo. Porquê?! Será que, ao contrário dos homens e da sua Igreja, Deus vê a personificação do pecado no homem e não na mulher?!!
No entanto, pouco importam as teorias, quando não têm aplicação prática. Porém, estas teorias, interpretadas às avessas, por S. Pedro, por S. Paulo, ou por seus seguidores, teve enormes consequências práticas nefastas. Jesus ainda tentou contrariar esta tendência, um dia provaremos que fora casado e tentara transmitir ao mundo o seu exemplo do que deveria ser um casamento, uma relação igualitária de companheirismo mútuo, mas esta faceta humana e pura de Jesus não servia o poder e inveja de alguns. Quem sabe, não seria esta, uma das três negações de S. Pedro, a que Jesus se referiu, antes de morrer: «Antes do galo cantar, tu negar-me-ás três vezes». Jesus falava, frequentemente, através de parábolas. Será que «antes do galo cantar» terá um sentido literal, ou referir-se-á a: antes da Igreja de S. Pedro se afirmar no mundo como poder oficial, cantando uma versão do Cristianismo à nova aurora e omitindo a outra, previamente negada???
Como consequência destes factos, homem e mulher continuaram de costas voltadas, num eterno desencontro que ainda prevalece nos nossos dias. Ambos condenados à frustração e infelicidade mútua. Se se desejam sexualmente, são mutuamente avaliados como promíscuos pecadores, se se tratam com indiferença, são rotulados de insensíveis e de algo pior. Nem através do casamento religioso conseguem manter a felicidade e união por muito tempo. Depois de tanta pressão religiosa e social contra-natura, acabam, alguns e algumas, por se virar para o seu próprio género em busca do conforto e compreensão que não encontram no outro, e novamente, são condenados.
De frustração em frustração, a humanidade refugia-se em vários tipos de vícios, «escapes» para esquecer a infelicidade de uma vida vazia e oprimida, outros transformam a frustração em violência, atacando sempre o elo mais frágil. Chefes violentam seus subordinados, marido violenta a esposa, esta ataca os filhos, e o ciclo repete-se e perpetua-se.
A mulher deixou de ter paz e poder para defender as suas crias, e estas são violentadas e negligenciadas da forma mais desumana, para mais tarde construírem uma sociedade com base nos seus traumas.
Homem e Mulher, há muito tempo que perderam a sua função natural neste mundo, que por isso, entrou em desequilíbrio. Tenta-se, agora, um novo renascimento, após longos anos de trevas. As sociedades onde a mulher tem mais voz activa são, também, as sociedades mais ricas e civilizadas. Isto não é pura coincidência. A sociedade é, naturalmente, matriarcal, pois são as mulheres que têm os filhos, os amamentam, os educam e mais os influenciam para o futuro. Uma mulher pouco esclarecida ou ignorante, mal tratada, oprimida, não pode dar bons frutos, nem bons exemplos.
Uma mulher que, por deficiente educação, trata pior ou com menos afecto suas filhas do que seus filhos machos, está não só, a contribuir para a infelicidade de ambos, como a prestar um mau serviço à Humanidade, produzindo futuras mulheres inseguras que veêm, inimigas em todas as outras (à imagem da mãe) e homens mimados, egoístas e incapazes, condenados à infelicidade conjugal e à solidão, além de incompetentes a todos os níveis. Freud não acertou em tudo e, muitas de suas teorias estão a ser fortemente contestadas, uma delas é o famoso complexo de Édipo e seu equivalente feminino. Quem produz este complexo é a própria mãe, na forma como trata e educa os seus filhos meninos e meninas. A única realidade prática é como o ditado (independentemente do sexo):«o cachorro e o menino, vão para quem lhe dá o carinho».
Que cada dia que passa, cada ser humano desperte um pouco mais. E que num futuro próximo, o dia da Mulher, passe a ser todos os dias e para todas as mulheres no mundo inteiro, para bem de toda a Humanidade.
Ana Matos

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